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“Quando entrei no curso ainda estava no segundo ano, então, a princípio, não levei muito a sério as aulas e as redações. A pesar disso, só de fazer os textos aquele mar vermelho foi diminuindo toda vez que eu os recebia de volta. Durante o terceiro ano que eu fui começar a dar mais valor às aulas, já que eu percebi o quão ruim eu era e que não era impossível melhorar. Lembro do primeiro elogio que recebi em uma redação de simulado (no primeiro semestre do terceiro ano), não me aguentei de tanta felicidade! Com o tempo, parecia que cada redação um pedaço de mim e cada elogio e reclamação passaram a ser totalmente absorvidos. Quando chegou ao meu terceiro ano de curso que eu comecei a ficar satisfeita com os meus textos, mesmo eles ainda tendo muitos defeitos. Sofri muito pra conseguir fazer redações satisfatórias, até porque eu via pessoas que faziam o curso por um semestre e já tiravam nove, sendo que eu demorei um ano e meio pra isso. Mesmo assim, não desisti (ainda bem, pois valeu a pena). A pesar de tudo, o que eu mais sinto falta nas minhas sextas feiras (além da Su) é das discussões que eram pautadas durante as aulas. Cresci muito nesses três anos de curso, não tenho dúvida. Por fim, quero agradecer a todos que corrigiram minhas redações pela ajuda, em especial, a Su, que me aturou por todo esse tempo, mesmo durante as férias!”
Maria Eduarda Bouret
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EÍSMO - A nova onda redutora

eismo forma doc.pdf (172,34 Kb)

                  

                            EÍSMOS – A NOVA ONDA REDUTORA

(Prof. Esp. Suzana Germosgeschi Luz)

 

                   O sufixo “ismo” indica doutrina, teoria, sistema, corrente, tendência, modismo. Geralmente seu emprego, sobretudo se acompanhado de plural, desencadeia um tom pejorativo ao termo como o que ocorre em “esquerdismo”, “petismo”, “humorismo”. No que diz respeito à linguagem, há os famosos QUEÍSMO, o DEQUEÍSMO e o GERUNDISMO.   

                   São fatos que empobrecem as construções e prejudicam a ligação lógica que deve ser estabelecida entre os enunciados. Quando isso ocorre, o texto fica dependente do leitor que terá a obrigação de completar a eventual lacuna ou até mesmo de adaptar àquele enunciado um termo que não foi usado, mas que deveria ter sido.

Vejamos alguns exemplos que vêm ilustrar os “ismos” citados acima:

  1. Ministro britânico tenta convencer que objetivo não é derrubar Saddam (Folha de S.Paulo, 22/02/2003).

                   O verbo “convencer” é bitransitivo, ou seja, convencemos alguém(O.D.) DE alguma coisa (O.Ind.). Então, a correção do enunciado acima seria: Ministro britânico tenta convencer DE que objetivo não é derrubar Saddam.

  1. Não resta dúvida que há muito que investigar sobre as ONGs. (Observatório da Imprensa – 06.11.2007)

                   A expressão “Não resta dúvida” também é regida pela preposição DE. “Temos dúvida de..”, “partimos da dúvida de que...”, “duvidamos de algo...”. Assim, no excerto acima, deveríamos ter: “Não resta dúvida DE que há muito que investigar...”.

                   Curiosamente, notemos como que, nos trechos abaixo, ocorre o oposto, ou seja, a preposição DE é dispensável, entretanto foi utilizada. É o “dequeísmo”:

  1. Não acredito de que a violência contra a mulher tenha origem em problemas pessoais (JORNAL DE DEBATES)
  2. A Swissmedic afirmou de que se trata de um inibidor de apetite que aumenta a secreção de hormônios das tireóides, "com riscos para a saúde que podem provocar até a morte".(Notícias UOL-31.08.2006)

         Nas duas situações acima, o emprego da conjunção DE está equivocado.

         Pode-se, além do mais, citar também o gerundismo, que já foi até defendido pelo Doutor Sírio Possenti (http://www.marcosbagno.com.br/for_sirio_estarndo.htm) e que é uma forma de acomodação coesiva. Em muitos casos, o locutor deixa de usar mecanismos coesivos e opta por uma oração reduzida, o que torna o texto repetitivo. Temos como resultado construções assim:

  1. É preciso desenvolver ações voltadas à geração de renda, garantindo o desenvolvimento social e econômico, apresentando soluções que conciliem o uso não predatório da natureza. (Quem é sujeito de “apresentando”? Qual o elemento que deixa claro quem apresentará “soluções que conciliem...”?)

                   Em outra construção, observemos: “Cerca de R$ 1 bilhão deixou de ser repassado aos cofres públicos pela quadrilha envolvendo fiscais de renda do Rio de Janeiro, empresários e contadores (Jornal Opção – 29/11/2007)”. Evidente que deveríamos ter “pela quadrilha que envolve fiscais de renda”, ou melhor ainda, “quadrilha na qual estão envolvidos fiscais de renda”.

                   Além desses “ismos”, está em plena formatação mais um que irá incrementar os capítulos dos vícios de redação nos mais variados manuais. Trata-se do “EÍSMO”, emprego vicioso da conjunção “e” como ocorre nas construções:

  1. Talvez os bebês indesejados morram, mas teremos um número muito grande de mulheres com problemas psicológicos. E o Brasil não terá a preocupação de não apenas executar o aborto, mas dar sustentabilidade antes e depois dele.
  2. Segundo a legislação brasileira, o aborto é legal em situação de estupro desde que a mulher faça prova de sua ocorrência, e para isso não basta sua palavra.
  3. Cheiro não convence ninguém que já não esteja convencido. Quanto mais o PSDB insiste nesse discurso, mais Lula elogia Chávez. E fica tudo na mesma, porque se desvia a atenção do que realmente importa e a discussão gira em falso. (Folha S. Paulo, Marcos Nobre, 27/11/2007)

                   Preliminarmente, é interessante relembrar que a conjunção aditiva, segundo a gramática da norma culta, serve para indicar ideia de soma, adição, acréscimo, tanto no processo coesivo entre termos como entre orações coordenadas. No entanto, se analisarmos os enunciados acima, verificaremos que, respectivamente, a conjunção E foi empregada no lugar de coesivos como DESTA FORMA, SENDO QUE e ASSIM. Há, em tais situações, um desvirtuamento do sentido original do termo que passou a atribuir uma ligação de CAUSA e CONSEQUÊNCIA à ideia.

                   Quando não, a conjunção E também acaba por substituir o termo MAS que serve para ligar sentidos em plena oposição semântica. Neste caso, a deturpação é ainda maior, pois o vocábulo, cujo sentido inicial é de soma, acaba por significar exclusão. É o que ocorre em “Te ver e não te querer/é improvável é impossível”, versos do grupo Skank, nos quais a conjunção tem evidente valor de “MAS”.

                   O que permite a existência de tais fenômenos é a supressão de nexos coesivos e a consequente substituição por um elo mais familiar ao falante, ou seja, a simples e básica conjunção “E”. Enquanto isso ocorre na seara da oralidade, não há sérias preocupações. Entretanto, deve-se observar o empobrecimento da linguagem quando o vício se espalha na escrita.

                   Observemos outros casos, um retirado da redação de alunos do Ensino Médio, outro extraído da internet:

  1. “Esse processo que transformou pequenas áreas urbanas em importantes centros durou décadas e até séculos, a exemplo de São Paulo. E tal evolução gerou benefícios, mas há também os malefícios”.

                   Reescrevendo, poderíamos obter melhor redação com “Esse processo... durou décadas e até séculos, a exemplo de São Paulo, sendo que tal evolução gerou benefícios, mas há também os malefícios”.

  1. Já contratou muitos de seus artistas, produtores e técnicos. E quase todas as semanas leva embora uma de suas emissoras afiliadas, emagrecendo sua rede e minguando suas receitas publicitárias. (www.observatoriodaimprensa.com.br)

                   A reescritura permitiria uma melhor elaboração: “Já contratou muitos de seus artistas, produtores e técnicos. Além disso, quase todas as semanas, leva embora uma de suas emissoras afiliadas, emagrecendo sua rede e minguando suas receitas publicitárias”.

                   Não pretendo, com essas colocações, ser purista e defender uma linguagem estática, sem variações, inerte. Não ignoro as mudanças pelas quais nosso idioma passa, aliás, há movimentos muito interessantes nesse sentido. A reflexão que busco visa alertar aqueles que desejam empregar uma linguagem escrita clara, naturalmente bem construída, em que o escritor/produtor empenhe-se em não se acomodar a mecanismos simplificados de escrita e que colocam, por vezes, a clareza em textual em risco.

                   Enfim, é possível sim adaptar nosso idioma a variações, mas é inconcebível que se permita uma linguagem deliberadamente simplificada em sua estrutura. Essa opinião lembra o que pregou o linguista Louis Hjelmslev: “A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela o seu pensamento, seus sentimentos, as suas emoções, os seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda da sociedade humana”.

                        

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